Othon Bastos revive decisões e lembranças marcantes em “Não me entrego, não!

O espetáculo “Não Me Entrego, Não!”, uma obra quase monológica que combina autobiografia com interpretação, está em exibição na Caixa Cultural Brasília até esta sexta-feira, dia 14. No palco, Othon Bastos revisita sua própria jornada, não apenas como um exercício de memória. Acompanhado pela atriz Marta Paret, que atua como um guia para suas recordações, Othon reflete sobre as escolhas, laços afetivos e experiências significativas que moldaram seus 75 anos de carreira.

A memória serve como ponto de partida para uma exploração mais profunda do homem por trás dos papéis que desempenhou no teatro, cinema e televisão brasileiros, permitindo uma análise das decisões e conexões que definiram sua trajetória.

Em uma conversa com a Revista Fórum, Othon discorre sobre seu percurso até o teatro, as escolhas que marcaram sua vida e as pessoas que permanecem vivas em sua lembrança. Ele também aborda temas como felicidade, juventude e esperança.

Diferente de um relato cronológico típico de uma autobiografia, Othon optou por uma abordagem mais fragmentada. Em vez de listar datas e eventos, ele escolhe momentos significativos de sua vida. Esses fragmentos não apenas transmitem lições valiosas, mas também entrelaçam duas facetas que ele considera inseparáveis: Othon Bastos o homem e Othon Bastos o ator.

Escolhas

A distinção entre essas duas dimensões é crucial para entender a proposta do espetáculo. No palco, Othon não tenta reproduzir a imagem idealizada que o público formou dele ao longo dos anos; ele se apresenta com sua própria visão sobre quem é e o caminho que percorreu. É nesse espaço que reside a força do encontro: a oportunidade de enxergar por trás dos personagens um ser humano que também enfrenta dilemas e faz escolhas.

Refletindo sobre suas decisões, Othon menciona um conceito do psicanalista Carl Jung: embora não sejamos responsáveis por tudo que nos acontece, somos responsáveis pelas escolhas que fazemos. Para ele, essa ideia se torna um reflexo pessoal; diante da infinidade de opções disponíveis na vida, escolher é essencial e muitas vezes inadiável. “Nem tudo te pertence; você deve saber escolher. O fundamental é saber fazer escolhas”, afirma.

No contexto teatral, essa lógica ganha nova profundidade. Realizar um monólogo implica selecionar cuidadosamente o que será transmitido; é reconhecer o que deve ser dito e permitir que as memórias conduzam a narrativa. Othon confia nesse diálogo com seu passado sem forçar narrativas alheias.

A verdade se revela quando se segue o próprio caminho.”

Dessa forma, o espetáculo se distancia de uma celebração nostálgica e se aproxima mais de um diálogo profundo sobre o sentido da vida. O passado não é apresentado como algo encerrado, mas como uma ferramenta viva capaz de gerar novas descobertas e ressoar com os espectadores.

Alegria

Dentre suas muitas recordações, Othon destaca uma emoção central à narrativa: a alegria de reencontrar pessoas significativas. “A alegria surge ao compartilhar esses fatos. E isso é exatamente o que acontece na peça: a felicidade em encontrar.” Os encontros são diversos: desde a professora Eliete até personalidades como Paschoal, Glauber e Leon — nomes que compõem seu rico panorama afetivo e profissional. Mais do que simples referências da memória do ator, essas figuras simbolizam os laços fundamentais na construção de sua identidade. “É essa alegria interna que desejo transmitir.”

Nesse gesto está presente uma compreensão generosa da própria vivência. Othon parece menos interessado em simplesmente relembrar suas experiências do passado e mais em partilhar aquilo que recebeu ao longo da vida: “Se estou vivendo essa felicidade, devo repassá-la às outras pessoas.” Essa afirmação encapsula um dos aspectos mais sutis de “Não Me Entrego, Não!”: transformar experiências individuais em algo coletivo e social relevante. Assim, a memória transcende o mero recordar para se tornar uma partilha significativa.

Arar o caminho

Quando questionado sobre as lições da velhice para os jovens no tocante à esperança, Othon redireciona a questão para outro ângulo. Para ele, muito do conhecimento adquirido na infância só adquire verdadeiro significado muitos anos depois: “O aprendizado da velhice pode ser compreendido somente após vivências acumuladas”.

A infância é vista por ele como uma escola eterna — não porque as crianças tenham todas as respostas prontas, mas porque elas exploram o mundo com uma liberdade frequentemente perdida na vida adulta. Ele observa crianças brincando; quando uma delas decide ser professora ou astronauta, essa crença genuína ensina aos adultos sobre aquilo que essas figuras representam em suas vidas: “As crianças nos ensinam isso.”

A conexão entre essa experiência infantil e a atuação é direta para Othon; acreditar no papel interpretado é fundamental — não basta apenas representar; é necessário estar totalmente imerso na experiência: “Na vida e na atuação é assim: você precisa crer no que faz.”

A infância não representa apenas um eco distante; ela carrega consigo bagagens emocionais que continuam influenciando cada pessoa ao longo do tempo. Com os anos, essas experiências vão sendo reinterpretadas — algumas ganham novos significados enquanto outras perdem importância — clareando assim o caminho à frente.

Essa metáfora ilustra bem a filosofia esperançosa defendida por Othon: alguém comprometido em arar seu próprio caminho — não necessariamente visando um destino fixo, mas removendo obstáculos para compreender suas escolhas enquanto continua avançando. “Você precisa limpar seu próprio caminho; ará-lo”, diz ele.

Não se trata de seguir ou guiar alguém; para ele, o essencial está na presença mútua: “A única coisa realmente importante é estarmos juntos — lado a lado.”

A forma como se relaciona com sua própria existência reflete esse entendimento; em vez de tentar dominá-la completamente, Othon propõe abrir-se à convivência com o desconhecido: “Permita-se ir junto à vida”, sugere ele com ternura.

No palco, Othon revisita memórias pessoais através das pessoas e episódios marcantes ao longo de sua trajetória artística. As recordações emergem não em ordem cronológica rígida mas através das interações significativas que moldaram sua história dentro e fora dos palcos.

Ainda que nem sempre consigamos recordar cada detalhe vivido ao longo da vida, as experiências nos marcam profundamente na maneira como vemos o mundo ao nosso redor e planejamos nosso futuro. É exatamente esse espaço emocional que Othon Bastos transforma em arte cênica — não se entregando ao tempo mas caminhando paralelamente a ele com confiança.

By Fala SP

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