Com as eleições se aproximando, percebo uma grande carência de educação política em nosso país. A maioria das pessoas não compreende a relevância do Legislativo, que abrange vereadores, deputados estaduais, federais e senadores. Muitos nem se dão conta de que, neste ano, teremos a votação para dois senadores e não lembram para quem destinaram seus últimos votos nas esferas legislativas. Contudo, é comum que saibam em quem votaram para os cargos de prefeito, governador e presidente. Não adianta eleger um candidato progressista para o Executivo enquanto lotamos as Assembleias e o Congresso com figuras contrárias à escala 5×2, que desrespeitam a laicidade do país e acreditam que o papel da mulher se limita a cuidar da casa e dos filhos, além de defenderem pedófilos e agressores. Há muitas dessas pessoas no Congresso.
Outro ponto importante é a ideia de que “futebol, religião e política não se discute”. Antigamente, eu acreditava que realmente não deveríamos discutir futebol e religião. Cada um tem sua crença (ou a ausência dela) e torce por seu time. Contudo, a existência de uma Bancada Evangélica no Congresso Nacional me faz questionar isso. A fé de alguém não deveria interferir na minha vida pessoal. No entanto, desde que algumas entidades começaram a agir de forma inconstitucional (sendo que nossa Constituição afirma que o Brasil deve ser laico), tentam usar a religião para alterar leis e apresentar projetos que excluem ou retrocedem direitos, especialmente os direitos das mulheres. Eu também pensava que discutir futebol era desnecessário até perceber como todos os times passaram a ser patrocinados por bets, promovendo jogos online e levando milhares de pessoas ao endividamento na ilusão de lucros fáceis, tudo isso com ídolos fazendo propaganda dos “benefícios” das apostas sob o pretexto de “jogar com responsabilidade”.
A política é um tema que deve ser debatido sim — sempre mantive essa posição — pois o voto alheio impacta diretamente minha vida. Essa discussão deve ser pautada em argumentos e propostas políticas reais, longe das brigas e ofensas generalizadas que emergiram após 2018, quando começou essa polarização que hoje se traduz mais como uma luta entre civilização e barbárie.
Após a última Copa do Mundo, repensei minhas convicções sobre discutir futebol; afinal, sou progressista e não conservadora. O conservadorismo muitas vezes resiste às mudanças, especialmente aquelas que ameaçam seus privilégios. Ouvi comentários como “é esquisito ver mulher narrando jogo” ou previsões de fracasso da Copa do Mundo feminina por falta de audiência — reflexos dos conservadores incapazes de aceitar mulheres em espaços anteriormente dominados por homens. É bom lembrar que até 1982 mulheres eram proibidas de jogar futebol no Brasil. E muitos não reconhecem Marta como a maior artilheira da seleção brasileira em todos os tempos: “ah, ela não conta”, dizem.
Outra observação feita durante esta Copa foi a comparação entre Neymar e Jair Bolsonaro: ambos parecem estar acima da crítica em seus respectivos campos. Sempre que expressei críticas ao “menino” Ney nas redes sociais vinha uma avalanche de respostas como “você não entende nada de futebol” ou “tá faltando louça suja pra lavar”. Minhas críticas não diziam respeito apenas ao seu comportamento fora dos campos (que é deplorável), mas ao fato dele já não apresentar mais um bom desempenho devido a lesões e ter sido convocado por pressão dos patrocinadores (jogos de azar). Neymar continua gerando constrangimento jogando pelo Santos Futebol Clube, mas sua torcida parece apoiá-lo incondicionalmente. Não considero aceitável um atleta se envolver em brigas com colegas (inclusive do próprio time), torcedores ou árbitros. É verdade que ele não é o primeiro nem será o último atleta a perder a razão em momentos críticos; porém isso deve ser encarado como exceção e nunca como regra. Neymar foi um grande jogador — foi — mas atualmente está distante desse patamar devido às lesões ou ao tempo dedicado ao poker. É lamentável ver alguém com tanto talento se tornando uma sombra do que foi e atuando como um mau exemplo tanto no esporte quanto na sociedade. Ao menos sua versão política encontra-se afastada da vida pública sem chances de retorno, embora tenha deixado um legado difícil de reparar.
