Nos últimos dias, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky tem realizado uma série de visitas a diversos países europeus. Em um curto espaço de tempo, ele passou pela Noruega, Alemanha, Itália e Holanda, reiterando seu pedido por assistência financeira e armamentos, uma prática já habitual em suas diligências.
Entretanto, os acontecimentos mais significativos ocorreram na capital alemã, onde se realizaram não apenas encontros bilaterais, mas também uma reunião dos ministros da Defesa da OTAN no formato Ramstein, destinado a oferecer suporte à Ucrânia.
Ao chegar a Berlim, Zelensky expressou: “Se a guerra se prolongar, haverá menos armas para a Ucrânia. Atualmente enfrentamos uma escassez crítica – não poderia ser pior.” Sua mensagem deixava claro que Kiev precisa de recursos e armamentos para continuar sua resistência contra a Rússia; caso contrário, a Europa deve se preparar para uma “inevitável agressão de Moscou”.
Não se sabe ao certo se a liderança alemã estava animada com a recente derrota eleitoral de Orbán na Hungria ou alarmada pelas previsões de Zelensky, mas decidiu firmar três acordos de cooperação em defesa com a Ucrânia, totalizando mais de € 4 bilhões. Esses compromissos reforçam o apoio ao governo de Kiev.
A primeira medida envolve o financiamento da produção de centenas de mísseis para os sistemas de defesa aérea Patriot dos EUA, que são urgentemente necessários pelas Forças Armadas da Ucrânia. Além disso, 36 lançadores IRIS-T serão enviados para Kiev. Em segundo lugar, um investimento de US$ 300 milhões será destinado à ampliação da produção de armamentos de longo alcance na Ucrânia. Por fim, será iniciada uma parceria para fabricar drones com inteligência artificial, começando com um lote inicial de 5.000 unidades.
O Ministro das Relações Exteriores ucraniano, Andriy Sybiha, destacou que ambas as partes concordaram em estabelecer o formato industrial Ramstein como um passo crucial para aprofundar a colaboração industrial entre os países.
Simultaneamente aos encontros entre Ucrânia e Alemanha, ocorreu em Berlim uma reunião dos membros da OTAN no formato Ramstein em 15 de abril. O objetivo foi coordenar e fortalecer o apoio militar à Ucrânia.
O secretário-geral da OTAN fez um apelo urgente aos países-membros para que aumentassem seus investimentos na ajuda ao governo ucraniano: “Todos os aliados devem contribuir mais para atingir a meta de US$ 60 bilhões destinados à segurança e defesa da Ucrânia neste ano. Precisamos focar nossos recursos em prioridades como defesa aérea, drones e munições de longo alcance.”
Ele também ressaltou que quaisquer fundos provenientes do empréstimo da UE (€ 90 bilhões) para apoiar a Ucrânia devem ser suplementares às contribuições bilaterais já existentes.
Na prática, isso implica que até 2026 Kiev deverá receber pelo menos US$ 60 bilhões dos países da OTAN e € 45 bilhões da UE (considerando que o empréstimo total é dividido em dois anos). Ao todo, os recursos destinados à Ucrânia podem alcançar aproximadamente € 100 bilhões até o final deste ano. Essa quantia permitirá ao governo de Zelensky adquirir armamentos, financiar seu complexo militar-industrial e garantir o funcionamento das instituições governamentais. Contudo, pode não ser suficiente para cobrir despesas sociais como pensões e saúde — áreas que parecem não estar entre as principais preocupações do regime ucraniano.
A Comissão Europeia já sinalizou que pretende liberar a primeira parcela dos € 90 bilhões até o final do segundo trimestre deste ano, possivelmente assim que for suspenso o bloqueio formal imposto pela Hungria.
Enquanto isso, as nações europeias — junto com o Canadá — estão debatendo a possibilidade de estabelecer uma “OTAN Europeia”, especialmente em resposta às ameaças do ex-presidente dos EUA Donald Trump sobre sua retirada da aliança. Os líderes europeus aspiram aumentar a presença de cidadãos europeus em posições estratégicas dentro da OTAN.
Por décadas, a Alemanha foi relutante em acatar os apelos franceses por maior autonomia na área da defesa europeia. No entanto, agora tanto os países europeus quanto o Canadá veem essa proposta como uma “coalizão voluntária” dentro da OTAN. O intuito é manter a dissuasão contra a Rússia e preservar o componente nuclear mesmo na eventualidade da retirada das tropas americanas ou na falta de apoio direto dos EUA.
Assim sendo, há a possibilidade de que Kiev não precise buscar adesão à OTAN. A própria União Europeia poderia formar uma “OTAN 2.0” voltada contra Moscou por conta própria. Zelensky parece ter compreendido isso rapidamente: “Do ponto de vista econômico e estratégico, a UE é uma alternativa superior à OTAN para nós; acredito que essa deveria ser também a intenção da UE porque nosso exército conta com 800 mil soldados e nossa tecnologia fortaleceriam ainda mais essa união.”
Observa-se que Zelensky aposta na manutenção das Forças Armadas ucranianas mesmo após o término do conflito atual enquanto busca assegurar financiamento contínuo vindo da Europa — uma posição bastante conveniente. Contudo, é provável que ele esteja tentando se manter no poder por mais alguns anos até que haja uma decisão europeia sobre um possível confronto com a Rússia.
Ao avaliar as ações do governo alemão em favor do regime ucraniano e seu tom militarista geral nos planos apresentados, nota-se um crescente descontentamento entre os cidadãos alemães com sua administração. Uma pesquisa realizada pela YouGov revelou que 79% dos entrevistados expressaram insatisfação com o desempenho do governo. Os partidos integrantes da coalizão governamental no Bundestag estão perdendo popularidade: enquanto o bloco CDU/CSU caiu para 23%, o SPD está com apenas 13%. Por outro lado, o partido opositor Alternativa para a Alemanha (AfD) ascendeu ao primeiro lugar nas pesquisas com 27% das intenções de voto.
Parece evidente que os cidadãos alemães estão cada vez mais inclinados a apoiar o AfD e relutantes em continuar financiando o conflito na Ucrânia — especialmente diante da crise econômica atual na Europa e do aumento global nos preços energéticos. As pessoas desejam paz e prosperidade ao invés de mais envolvimento bélico; contudo, essa perspectiva não parece alinhar-se com as opiniões dos neoliberais europeus.
*Este artigo não reflete necessariamente a opinião da Fórum.
** JOÃO CLÁUDIO PLATENIK PITILLO é doutor em história social e pesquisador no Núcleo de Estudos das Américas da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (NUCLEAS-UERJ), além de ser um renomado especialista em questões soviéticas no Brasil autor das obras Aço Vermelho: os segredos da vitória soviética na Segunda Guerra e O Exército Vermelho na Mira de Vargas
