Demitido por Vazamento: Agente da PF é Destituído em Caso de Contrainteligência no Maranhão

O agente da Polícia Federal Edvar Rodrigues dos Santos foi afastado por determinação do ministro Flávio Dino, que investiga sua suposta participação em uma operação de contrainteligência no Maranhão. Edvar já havia sido demitido da corporação por ter divulgado informações sigilosas de uma investigação a figuras políticas do estado. Esse histórico foi recuperado pela própria Polícia Federal e é mencionado em uma das decisões do Supremo Tribunal Federal (STF), cuja confidencialidade foi revogada nesta sexta-feira (14).

Os investigadores não consideram o passado de Edvar como uma mera coincidência. Segundo a Polícia Federal, há uma “correspondência direta e preocupante” entre as ações que levaram à sua demissão e os acontecimentos em investigação atualmente. Na decisão, Dino acrescenta que a conduta atribuída ao agente pode ter prejudicado a coleta de provas em razão da “contra-inteligência”.

A investigação aponta que Edvar teria buscado aproximação com Gilbson Cézar Soares Cutrim, pai de Gilbson Cézar Soares Cutrim Júnior, este último preso em Brasília e sob investigação em um dos vários inquéritos relacionados ao esquema de corrupção e obstrução da Justiça no Maranhão.

A suspeita gira em torno do fato de que o policial teria acessado informações de uma investigação sigilosa à qual não estava formalmente vinculado, utilizando esse conhecimento para influenciar Gilbson. Conforme informações da PF, Edvar se apresentou como parte da equipe responsável pelo caso, apesar de nunca ter feito parte dela.

Contatos intensos em um único dia

A Polícia Federal conseguiu traçar parte da relação após a análise do celular de Gilbson, que foi entregue voluntariamente aos investigadores no dia 19 de fevereiro deste ano.

No dia 2 de fevereiro, a perícia identificou 19 interações entre Gilbson e o telefone associado a Edvar. Essas comunicações incluíram seis mensagens trocadas entre 9h21 e 9h58, além de oito ligações efetuadas entre 20h34 e 21h01, com um retorno às 21h17.

A análise das mensagens levou a PF a concluir que Edvar tinha conhecimento sobre as diligências referentes ao RDF 2026.0010402, mesmo sem autorização para acessar aquele procedimento. A decisão destaca que ele orientou Gilbson sobre o sigilo das conversas, demonstrando estar ciente das informações da investigação e mencionando advogados e outros envolvidos no caso.

No decorrer das chamadas feitas na noite de 2 de fevereiro, observou-se que duas mensagens enviadas por Edvar foram deletadas pelo próprio remetente. A Polícia Federal interpreta essa ação como um indício de tentativa deliberada de destruir provas.

Além disso, há registros de uma conversa ocorrida dois dias antes, onde Gilbson relatou que Edvar questionou sua confiança no advogado e enfatizou que “esse caso não pode vazar”. Quando questionado sobre qual caso se referia, teria respondido: “esse caso da proposta que o pessoal fez”.

PF afirma que vazamento afetou investigações

A suspeita acerca da contrainteligência no Maranhão se intensifica devido ao fato de que informações sobre as operações da própria Polícia Federal parecem ter chegado ao grupo sob investigação.

Citada na decisão, um despacho revela indícios de que membros do grupo ligado à família Brandão estavam cientes das visitas dos familiares de Gilbson à sede da PF.

Tais informações comprometeram o andamento de uma diligência e resultaram em adiamentos sucessivos para uma entrega financeira sob supervisão dos investigadores. Em consequência, essa operação não ocorreu conforme planejado.

Diante desse cenário, a PF começou a considerar a possibilidade de que Edvar atuasse como um meio para desestimular Gilbson Júnior a colaborar com o Supremo.

Dino conclui que os elementos coletados até agora sugerem que o agente tinha acesso aos mecanismos internos da investigação e estaria disposto a usar sua posição policial para pressionar indivíduos envolvidos no caso.

Ponto crítico: vazamentos anteriores

A investigação do histórico funcional de Edvar revelou detalhes preocupantes sobre o episódio atual.

Ingressando na corporação em abril de 2009, Edvar foi demitido em julho de 2019. Entre as justificativas para sua punição está o vazamento de informações relacionadas à Operação Capitanias Hereditárias/Donatários, conduzida pela PF no Maranhão.

No documento assinado por Dino, consta que Edvar teria fornecido a Líderes políticos maranhenses dados confidenciais sobre a operação, incluindo conteúdo proveniente de interceptações telefônicas autorizadas pela Justiça.

Dessa forma, o vazamento teve impacto direto nas investigações em andamento.

A própria Polícia Federal ressalta a semelhança entre os dois episódios. Na situação anterior, Edvar utilizou seu cargo para fornecer dados sigilosos a interessados nos resultados das apurações. Agora ele é novamente alvo de investigação por acesso não autorizado à informação protegida e possível utilização desses dados para influenciar comportamentos investigativos.

“A similaridade com os fatos atualmente investigados é clara”, afirma o documento policial registrado na decisão.

Dino indica uso indevido da máquina pública

No momento em que decidiu pelas medidas contra Edvar, Dino incluiu este caso dentro uma investigação abrangente sobre práticas possíveis destinadas a obstruir as apurações no Maranhão.

No despacho, o ministro menciona indícios de infiltração na Polícia Federal visando repassar informações confidenciais aos investigados, além das táticas consideradas inadequadas contra potenciais colaboradores e falhas observadas pela PF na apuração do homicídio do empresário João Bosco Sobrinho Pereira de Oliveira.

Dino acredita que as ações atribuídas a Edvar reforçam as suposições investigativas sobre o uso indevido da máquina pública como forma de impedir o andamento da Justiça.

Neste contexto, ele utiliza explicitamente termos que revelam a gravidade do caso. O ministro alerta que manter Edvar em suas funções poderia comprometer novas descobertas devido à atuação potencialmente prejudicial do agente na função pública relacionada à “contra-inteligência”.

Nesta sexta-feira (14), novos detalhes foram divulgados sobre um conjunto mais amplo das decisões retiradas do sigilo por Dino. Em reportagens relacionadas ao mesmo núcleo investigativo, foram apresentadas novas revelações com base na abertura dos autos e outros desdobramentos das investigações no Maranhão .

Afastamento cautelar por 120 dias

Dino determinou o afastamento cautelar por 120 dias de Edvar e impediu-o de acessar instalações da Polícia Federal ou sistemas internos da corporação , além proibir contato com servidores envolvidos nas investigações relacionadas ao caso .

Foi também vetado qualquer contato com Gilbson Cézar Soares Cutrim e outros investigados , sob pena de eventual decretação prisão preventiva .

O ministro autorizou ainda busca pessoal e domiciliar , bem como quebra do sigilo telemático do agente . Essa medida possibilita aos investigadores acessar mensagens , registros telefônicos , contatos , grupos aplicativos e dados geográficos reunindo informações sobre a extensão das atividades atribuídas a Edvar e presença possível outros envolvidos .

Dino enfatiza em sua decisão que ainda não existem elementos suficientes para afirmar categoricamente sobre crimes ou envolvimento dos implicados . As medidas cautelares foram adotadas diante dos indícios coletados até este momento .

 

By Fala SP

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