Descubra o que é o Hezbollah e conheça a sua trajetória histórica no Líbano.

A guerra contra o Irã tem se agravado cada vez mais. A agressão de Israel e dos Estados Unidos se intensificou com a entrada do grupo Hezbollah no conflito, que passou a contra atacar Israel que, há tempos, bombardeia o sul do Líbano sob a justificativa de destruir o Hezbollah.

O confronto agrava uma crise humanitária já severa: estima-se que quase um terço da população libanesa tenha sido deslocada, em meio a bombardeios contínuos e colapso da infraestrutura básica.

Embora frequentemente descrito por potências ocidentais como organização terrorista, o Hezbollah é também visto, por parte da população libanesa e por aliados regionais, como um movimento de resistência contra Israel, percepção essa que ajuda a explicar sua permanência e influência política no país.

A origem do Hezbollah

O surgimento do Hezbollah, no início da década de 1980, está diretamente ligado à convergência de três fatores: a guerra civil libanesa, a marginalização histórica da comunidade xiita e a projeção regional do Irã após a Revolução Islâmica de 1979. No entanto, foi a invasão israelense do Líbano em 1982 o elemento decisivo que transformou essas condições em um movimento armado organizado.

Durante a guerra civil (1975-1990), o Líbano se fragmentou em múltiplas milícias e zonas de influência. Nesse contexto, os xiitas, concentrados no sul do país e nos subúrbios de Beirute, viviam sob pressão constante: de um lado, a presença armada de grupos palestinos refugiados; de outro, as recorrentes agressões militares de Israel.

A ofensiva israelense de 1982, lançada com o objetivo de eliminar a Organização para a Libertação da Palestina (OLP), teve efeitos que ultrapassaram seus objetivos iniciais. A ocupação do sul do Líbano e o avanço até Beirute intensificaram o sentimento de vulnerabilidade e radicalização entre os libaneses, criando as condições para o surgimento de uma resistência mais estruturada e ideologicamente alinhada ao Irã.

Antes do Hezbollah, o principal ator xiita era o movimento Amal, liderado por Musa al-Sadr. No entanto, após o desaparecimento do líder em 1978 e, sobretudo, diante do impacto da invasão de 1982, emergiu uma dissidência mais ideológica e combativa. Essa ala rejeitava o pragmatismo do Amal e defendia uma resistência armada permanente — posição que seria a base para a formação do Hezbollah.

O papel do Irã e as intrigas regionais

A Revolução Iraniana foi decisiva nesse processo. Teerã forneceu inspiração ideológica e também apoio direto: membros da Guarda Revolucionária foram enviados ao Vale do Bekaa para treinar e organizar as milícias xiitas.

Ainda assim, a formação do Hezbollah não foi linear. Diferentes grupos disputavam liderança, recursos e legitimidade, enquanto potências regionais interferiam nos bastidores. A Síria, por exemplo, apesar de aliada do Irã, buscava conter a expansão do Hezbollah para preservar sua própria influência no Líbano, frequentemente apoiando o movimento Amal como contrapeso.

Essas tensões resultaram em disputas indiretas e rearranjos de poder dentro da própria comunidade xiita. O Hezbollah acabou prevalecendo não apenas pelo apoio iraniano, mas por sua eficácia militar e capacidade de mobilização social.

Da milícia à estrutura híbrida

Desde o início, o Hezbollah combinou ação armada com um projeto político-religioso. Em 1985, com a publicação de seu manifesto, o grupo formalizou sua oposição a Israel e aos Estados Unidos, além de sua lealdade à liderança iraniana.

Ao mesmo tempo, construiu uma base interna sólida ao oferecer serviços sociais em regiões negligenciadas pelo Estado libanês. Essa estratégia consolidou sua legitimidade e permitiu sua transformação em um ator híbrido — simultaneamente milícia, partido político e rede assistencial.

Consolidação e confronto com Israel

Do ponto de vista militar, destacou-se pela guerra assimétrica contra Israel. A retirada israelense do sul do Líbano em 2000 foi considerada uma vitória estratégica pelo grupo. Já a guerra de 2006 marcou um ponto de inflexão: o Hezbollah demonstrou capacidade de resistir a uma ofensiva convencional, utilizando mísseis antitanque, redes subterrâneas e ataques coordenados.

Desde então, a relação entre Israel e Hezbollah tem sido caracterizada por ciclos de dissuasão e escalada controlada — dinâmica que se rompeu com os eventos de 2026.

O Hezbollah hoje

Em 2026, o Hezbollah é considerado o ator não estatal mais fortemente armado do mundo. Estimativas indicam um arsenal de até 200 mil foguetes e mísseis, além de drones e forças de elite treinadas para operações transfronteiriças.

Internamente, o grupo exerce influência decisiva na política libanesa, mantendo representação parlamentar e operando uma rede de serviços sociais que inclui hospitais, escolas e assistência financeira. Essa atuação reforça sua legitimidade entre setores da população, apesar das críticas internacionais.

A guerra de 2026

A atual guerra ganhou escala após ataques coordenados “preventivos” dos Estados Unidos e Israel contra o Irã com a justificativa de destruir o programa nuclear do país. Contrariando as declarações anteriores dos Estados Unidos, que afirmavam ter destruído completamente as instalações e os programas nucleares iranianos durante a Guerra dos Doze Dias, em 2025.

Em resposta, o Irã mobilizou seus aliados regionais. O Hezbollah abriu uma frente no norte de Israel, transformando o conflito em uma guerra regional. Israel respondeu com bombardeios intensos no Líbano e operações terrestres no sul do país.

Além do impacto militar, a crise provocou efeitos globais. O bloqueio do Estreito de Ormuz pelo Irã afetou cerca de 20% do comércio mundial de petróleo.

By Fala SP

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