A revista Military Watch revelou que a Argélia está investindo na construção de hangares reforçados e bunkers subterrâneos em locais estratégicos do território, especialmente nas proximidades da fronteira com o Marrocos. Essa iniciativa visa proteger seus ativos militares em caso de ataques aéreos inesperados por forças estrangeiras.
Esse movimento ocorre no contexto do fortalecimento das relações militares entre o Marrocos e potências ocidentais, como Israel e os Estados Unidos.
A Argélia mantém uma das mais sofisticadas e densas redes de defesa antiaérea do continente africano, utilizando sistemas russos como o S-300PMU2. Analistas apontam que a nação também possui versões mais avançadas, como o S-400, que têm capacidade de interceptar aeronaves, mísseis balísticos e munições de precisão a grandes distâncias.
No entanto, é necessário preparar-se para enfrentar uma das principais ameaças contemporâneas nas guerras aéreas e híbridas: os drones de ataque de precisão. A Turquia se destaca como um dos principais exportadores desse tipo de tecnologia, fortalecendo suas relações bilaterais com a Argélia.
A experiência dos ataques israelenses ao Hezbollah nos últimos anos demonstrou que infraestruturas subterrâneas podem reduzir significativamente a eficácia dos bombardeios convencionais. O Hezbollah desenvolveu redes subterrâneas no Líbano para evitar ataques israelenses, estratégia agora adotada pela Argélia em resposta à ameaça dos drones.
Em termos de aviação militar, a Argélia conta com uma frota superior a 70 caças Su-30MKA, que estão entre os mais modernos da África, além de MiG-29 modernizados. Em 2025, o país fez progressos na aquisição de aeronaves de quinta geração, tornando-se o primeiro na África a acessar essa tecnologia, que oferece maior alcance visual, furtividade e integração em redes eletrônicas de combate.
Dados do Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI) mostram que os gastos com defesa da Argélia são os mais altos da África, ultrapassando US$ 18 bilhões em 2024, o que representa cerca de 8% do PIB nacional (uma das maiores proporções globais).
Esse investimento substancial em defesa está alinhado com uma doutrina dissuasiva impulsionada por rivalidades históricas com vizinhos como o Marrocos e pela necessidade de proteger-se contra tensões na região do Sahel. Esta área se estende entre o Saara e o Sudão e é banhada pelo Atlântico a oeste e pelo Mar Vermelho a leste.
No Sahel, a Argélia apoia um movimento que luta pela independência do Saara Ocidental desde 1975 (a última colônia africana antes sob domínio espanhol), uma questão que gera tensões significativas com o Marrocos, responsável por até 80% da ocupação desse território.
O Saara Ocidental é dividido por um muro militar chamado “Berm”, construído pelo Marrocos na década de 1980. Enquanto o oeste é controlado pelo Marrocos, a Frente Polisário — uma organização saaraui socialista — mantém controle sobre o leste.
A Military Watch observou que “as Forças Armadas da Argélia têm buscado assegurar sua capacidade de sobrevivência diante de um possível ataque inicial [de adversários]”, envolvendo a construção de “hangares projetados para proteger equipamentos valiosos contra drones, mísseis de ataque preciso e munições de longo alcance”.
A motivação para esses sistemas defensivos provém do receio sobre potenciais intervenções militares respaldadas pela OTAN, semelhante ao ocorrido na Líbia em 2011. Nesta ocasião, foi autorizada uma operação pela ONU sob a justificativa de “proteger civis” contra o regime de Kadafi durante as manifestações da Primavera Árabe. Isso resultou em mais de 9.600 bombardeios e gerou um grave vácuo político no país.
A experiência serviu como um alerta sobre a necessidade da postura dissuasiva da Argélia nas dinâmicas políticas do norte da África, onde compete com o Egito pelo status de potência militar.
Ainda que possua um maior efetivo militar absoluto e receba apoio dos Estados Unidos, o Egito — rival no quesito poder militar no continente africano — é considerado inferior em termos de integração estratégica e qualidade da sua estrutura defensiva, especialmente no setor aéreo.
A Argélia estabeleceu uma das redes antiaéreas mais avançadas fora do âmbito da OTAN, utilizando sistemas como o S-300PMU2. Este sistema russo é projetado para interceptar aeronaves e mísseis balísticos táticos.
Os mísseis lançados pelo sistema incluem os longos alcance 48N6E2, também desenvolvidos na Rússia.
Embora o Egito opere grandes contingentes numéricos, sua defesa aérea é menos coesa e composta por sistemas oriundos de diversos fabricantes europeus, americanos e russos, sem a unidade arquitetônica encontrada no sistema argelino. O enfoque argelino está voltado para uma doutrina militar focada em guerras convencionais intensas contra adversários tecnologicamente superiores.
Dessa forma, a Argélia se transforma em um alvo potencialmente caro para ações militares estrangeiras. As Forças Armadas desempenham um papel crucial na estrutura estatal do país; elas foram fundamentais na fundação da nação após a guerra pela independência contra a França (1954–1962), liderada pela Frente de Libertação Nacional (FLN) junto ao seu braço militar, o Exército de Libertação Nacional.
Ao término desse conflito, o vácuo deixado permitiu que os militares emergissem como a força política mais organizada e legitimada pela vitória sobre o colonialismo. Esse protagonismo se solidificou nos anos seguintes sob a formação do Exército Nacional Popular (ANP), herdeiro direto dessa luta pela independência e que passou a exercer influência decisiva sobre o sistema político local.
