A Polícia Federal (PF) está planejando solicitar à Justiça dos Estados Unidos a liberação de informações sobre o fundo Havengate. Este fundo recebeu um montante de pelo menos 10,6 milhões de dólares (equivalente a R$ 61 milhões) de Daniel Vorcaro, vinculado ao Banco Master, supostamente destinado à produção do filme Dark Horse, que retrata uma narrativa da ultradireita relacionada a Jair Bolsonaro (PL).
O gerenciamento do fundo é feito por Paulo Calixto e Altieris Santana, ambos da Calixsan, que estariam atuando como representantes de Eduardo Bolsonaro nos EUA. Calixto é advogado de Eduardo, enquanto Santana foi designado pelo “03” da família Bolsonaro como porta-voz, autorizado a realizar reuniões presenciais para discutir os recursos destinados ao filme.
Os investigadores estão interessados em determinar se os valores significativos enviados por Vorcaro ao Havengate foram utilizados para sustentar o estilo de vida luxuoso de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. Este último, junto com o deputado Mario Frias (PL-SP), é listado como “produtor-executivo” do filme e teria responsabilidades na captação e gestão desses fundos.
O repasse financeiro feito por Vorcaro ao fundo Havengate ocorreu através da Entre Investimentos e Participações, uma empresa do grupo Master que recebeu R$ 139,2 milhões via Sefer Investimentos. Este último é um dos alvos da segunda fase da operação Compliance Zero, realizada em janeiro deste ano.
Além disso, outros R$ 20 milhões foram supostamente direcionados pelo fundo Gold Style, que é administrado pela Reag, empresa do pastor Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, atualmente detido.
A PF revelou que o fundo da Reag teria recebido cerca de R$ 1 bilhão de empresas consideradas parte do esquema de lavagem de dinheiro relacionado ao PCC no sistema financeiro.
Mensagens obtidas revelam que Eduardo Bolsonaro solicitou a Thiago Miranda, associado a Daniel Vorcaro, para “enviar o máximo possível ainda neste sistema atual”, referindo-se ao remetente. Ele destacou que se a empresa brasileira não tiver um orçamento elevado como mencionado anteriormente, isso poderia ser problemático. Também ofereceu a ajuda de Altieris Santana para facilitar reuniões com quem fosse necessário.
Em fevereiro passado, Santana e Calixto estabeleceram uma offshore chamada MCC-4 Equity Fund GP LLC em Delaware, um conhecido paraíso fiscal nos EUA que também está sob investigação da PF em relação ao caso Refit envolvendo Ricardo Magro.
Quebra de sigilo dependerá do governo Trump
A nova classificação dada pelo governo dos EUA nesta sexta-feira (5), que designou o PCC e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas, pode complicar a solicitação de quebra de sigilo do fundo Havengate. Essa questão deverá ser aprovada pelas autoridades superiores da administração Donald Trump.
A PF está buscando abrir uma investigação sobre as remessas milionárias para o fundo Havengate e enviou um parecer à Procuradoria-Geral da República (PGR). Flávio Bolsonaro (PL-RJ) conta com a proteção do presidente dos EUA para evitar a liberação de informações que poderiam expor um possível esquema de lavagem de dinheiro envolvendo sua família.
O pedido formal para quebra de sigilo terá que ser encaminhado pelo Ministério da Justiça diretamente ao governo Trump, que decidirá sobre a colaboração com as autoridades brasileiras na investigação.
A possível associação entre facções criminosas na apuração do caso Master — que envolve alegações de lavagem de dinheiro com ligação ao PCC — pode atrasar ainda mais essa solicitação. A quebra de sigilo também precisará passar pela aprovação da CIA, agência responsável pela inteligência nos EUA.
Diferente do Brasil, onde há um Ministério Público independente, os procuradores americanos estão vinculados ao Departamento de Justiça e necessitam da autorização do governo Trump para compartilhar informações com outros países.
Eduardo e Flávio sob investigação
No ofício enviado à PGR pela PF, são mencionadas mensagens nas quais Eduardo Bolsonaro solicita verbas ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro para financiar o filme Dark Horse, que é inspirado na trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Dado que Eduardo ocupa um cargo no Senado Federal, a Polícia Federal decidiu encaminhar suas conclusões à PGR para análise adicional. O Supremo Tribunal Federal (STF), especificamente através do ministro André Mendonça — relator do caso Master — será responsável por decidir se abrirá ou não um inquérito sobre as alegações.
A PF acredita haver evidências suficientes para justificar uma investigação sobre as suspeitas relacionadas às transferências financeiras totalizando R$ 61 milhões aos Estados Unidos, considerando que uma parte significativa das filmagens ocorreu no Brasil.
Uma das principais linhas investigativas busca averiguar se esses recursos foram utilizados para manter Eduardo Bolsonaro nos EUA. Ele enfrenta acusações no STF por coação durante um processo judicial referente a tentativas de influenciar decisões contra seu pai por tentativa de golpe.
Se for comprovado que os fundos enviados por Vorcaro financiaram as atividades de Eduardo nos EUA, os envolvidos poderão ser acusados por conivência no crime de coação além das suspeitas relacionadas à evasão de divisas. Além disso, o ministro Alexandre de Moraes estipulou um prazo para que a PGR se manifeste acerca da inclusão dos nomes Flávio e Jair Bolsonaro nas investigações já em curso sobre as ações de Eduardo nos Estados Unidos.
Diante das investigações em andamento, Flávio Bolsonaro confirmou ter solicitado dinheiro a Vorcaro mas nega qualquer irregularidade. Ele afirma que todos os valores foram exclusivamente destinados à produção do filme e promete apresentar contratos e comprovações pertinentes. Tanto ele quanto Eduardo negaram o uso dos fundos para despesas pessoais nos Estados Unidos.
