Como esperado, a escalada do conflito entre Irã, Israel e Estados Unidos ultrapassou o campo militar e começou a impactar a economia global. Com o petróleo em alta e interrupções em rotas comerciais estratégicas, organismos internacionais e analistas convergem para um mesmo cenário: o mundo pode enfrentar uma nova onda inflacionária. É também a avaliação da especialista e analista internacional Rose Martins, entrevistada pelo Jornal da Fórum nesta quinta-feira (19).
“Uma vez que o Irã passou, e eu não estou utilizando nem a palavra fechamento, mas passou a controlar militarmente o Estreito e, portanto, decidir quais são os navios que vão passar ou não, o preço da energia subiu. O preço do barril do petróleo chegou a bater 120 dólares se aproximando cada vez mais do período da guerra da Ucrânia e uma vez que a gente está tentando analisar dia após dia e chegando a conclusão de que esse conflito não vai acabar tão rapidamente, é que o preço da energia suba ainda mais. Então, já tem um um aumento no preço do petróleo”, explica ela. “Os preços na Europa vão voltar a subir também. Já estavam são muito altos por causa da guerra da Ucrânia e vão ter um aperto inflacionário ainda maior.”
O principal motor dessa pressão inflacionária é o choque energético. O barril do petróleo tipo Brent é referência internacional e teve alta de 52% em relação ao período anterior à guerra. A disparada está ligada à situação no Estreito de Ormuz, rota por onde passa cerca de 20% do petróleo e do gás natural consumidos no mundo. Como mostrou uma matéria da Fórum, quando há tensões geopolíticas entre regiões produtoras de petróleo, há um impacto direto na cotação do petróleo, que tende a reduzir a oferta global e reforçar a dependência externa.
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A economia europeia vai estar entre as mais afetadas e a China economicamente estabilizada, segundo a especialista. “Os europeus podem se preparar para isso”, afirmou. O impacto vai além do petróleo e atinge a produção agrícola. “Em relação aos fertilizantes, o gás natural também é um insumo de um tipo de fertilizante. Além disso, um quarto, do comércio de fertilizantes mundial também passa pela aquela região do Estreito de Ormuz, o que é também muita coisa”, disse.
Além dos fertilizantes, a região concentra uma estrutura industrial mais complexa do que no passado, o que amplia os efeitos da crise. “Tem plástico, derivados, os demais derivados de petróleo […] eles avançaram muito para dominar toda a cadeia produtiva do petróleo”, afirma Martins. Segundo ela, os países do Oriente Médio hoje operam refinarias, produzem fertilizantes e exportam gás natural liquefeito (GNL). “O gás natural liquefeito, inclusive, é o gás que é vendido para os países europeus. Eles têm produção de fertilizantes, eles têm as refinarias.”
“Virou um ponto […] central pro comércio de gás e de petróleo do ponto de vista global, todos os países do mundo podem ser afetados”, disse.
Os maiores importadores do petróleo que passa pela região são economias asiáticas como China, Japão, Coreia do Sul e Índia. De acordo com Martins, o fluxo de petróleo não foi totalmente interrompido, mas passou a ser controlado de forma seletiva. “Quando eu digo que na verdade o Estreito não tá fechado, ele tá controlado […] os navios chineses estão passando normalmente”, acrescenta a analista. “Há também uma negociação para os indianos também conseguirem ter acesso, os navios indianos também poderem transitar”.
Para a analista, o controle do fluxo energético faz parte de uma estratégia mais ampla do Irã. “O Irã tá fazendo esse fechamento seletivo como uma forma de atingir a economia dos Estados Unidos e causar danos não somente para os Estados Unidos, mas também para os seus aliados”, avalia Martins.
O impacto já é percebido entre países que apoiam Washington e o próprio Estados Unidos que diz querer encerrar a guerra que criou junto a Israel na região. “Os países engajados com os Estados Unidos nessa guerra viram que é uma situação bastante complicada”, afirmou, mencionando também a retirada de estruturas diplomáticas e militares americanas em algumas áreas.
“Eles vão ter que gastar em armas para lidar com essa grande capacidade que o Irã tá demonstrando de lançamento de mísseis e de drones”, concluiu. “O mundo inteiro vai ter que se preparar se esse conflito for durar mais 2, 3 meses para uma pressão inflacionária muito grande, inclusive o Brasil, né? Então, o Irã está entrando nessa estratégia econômica, digamos, é muito inteligente.”
No caso do Brasil, o efeito tende a ser ambíguo. Como exportador de petróleo, o país pode se beneficiar da alta nos preços da commodity. No entanto, esse ganho se concentra no setor produtor. Para consumidores e empresas, o impacto é negativo. Combustíveis mais caros pressionam o custo de vida e a produção, enquanto a alta de fertilizantes pode encarecer alimentos.
Bancos centrais das principais economias, como Estados Unidos, Japão, Reino Unido e países da zona do euro, já sinalizaram que vão endurecer a política monetária para conter a inflação. O Brasil reduziu juros básicos para 14,75% ao ano. A preocupação também remete a um cenário histórico: o choque do petróleo dos anos 1970, que provocou inflação elevada e desaceleração econômica simultânea. Em entrevista À imprensa, o economista Nouriel Roubini alertou que há risco de repetição desse padrão. “A combinação de energia cara e instabilidade geopolítica pode desorganizar a economia global e causar inflação e recessão”, declar
