Mega projeto de US$ 5 bilhões irá transformar água do mar em solução para o deserto na América Latina

Um dos mais significativos empreendimentos de infraestrutura hídrica da América Latina será realizado no Chile, com um investimento estimado em cerca de US$ 5 bilhões.

A proposta do projeto “Aguas Marítimas”, apresentada pela empresa CRAMSA Infraestructura SpA, recebeu a aprovação da Comissão de Avaliação Ambiental (Coeva) após a análise de um Estudo de Impacto Ambiental. A grande planta de dessalinização será situada na região de Antofagasta, localizada no extremo norte do país.

Nos últimos 15 anos, o Chile enfrenta uma grave crise hídrica, com a precipitação abaixo da média em até 75% do território nacional.

A demanda pela água nos setores agrícola e minerador, principalmente na extração de cobre, principal mineral exportado pelo país (responsável por 24% das exportações mundiais dessa commodity e representando 59,1% do total das vendas externas chilenas), não é mais atendida pelos aquíferos andinos.

Conforme as informações disponibilizadas ao Sistema de Avaliação de Impacto Ambiental (SEIA), a nova instalação terá capacidade para gerar aproximadamente 700 mil metros cúbicos de água dessalinizada diariamente, o que permitirá suprir as necessidades tanto das grandes cidades quanto das atividades industriais.

A planta será erguida a cerca de 15 quilômetros da costa pacífica em Antofagasta. O processo envolverá a captação da água do mar, que será dessalinizada por meio da técnica de osmose reversa antes de ser distribuída para diversos municípios situados no deserto do Atacama, o mais árido do planeta.

A osmose reversa é amplamente utilizada para dessalinizar água do mar. Nesse método, a água é pressionada por bombas contra membranas semipermeáveis, que conseguem reter até 99% dos sais (como o cloreto de sódio), metais pesados e microrganismos presentes.

O projeto abrange ainda cerca de 480 quilômetros de aquedutos, 17 estações de bombeamento e mais de 300 quilômetros em linhas elétricas, além das subestações necessárias para fornecer água potável às áreas urbanas com escasso acesso a esse recurso, como Antofagasta Norte e La Negra.

A megasseca que atinge o Chile é um fenômeno ligado às mudanças climáticas e à diminuição consistente das chuvas na região andina. No norte do país, onde estão localizadas algumas das maiores minas de cobre do mundo, a dessalinização representa uma alternativa estratégica para aliviar a pressão sobre os aquíferos e lençóis freáticos do Atacama.

A Comissão Chilena del Cobre (Cochilco) aponta que o uso da água do mar pela mineração no Chile tem aumentado continuamente e deverá ultrapassar o consumo da água continental nas próximas décadas, especialmente na região de Antofagasta, onde operam grandes empresas mineradoras como Codelco, BHP, Antofagasta Minerals e Anglo American.

No ano passado, o grupo Antofagasta Minerals já havia inaugurado uma planta própria para dessalinização, com investimentos superiores a US$ 2 bilhões, destinada ao abastecimento da mina Los Pelambres. Dessa forma, Antofagasta foi reconhecida pelo governo chileno como a primeira cidade latino-americana cujo abastecimento urbano é totalmente baseado em água dessalinizada.

O processo para licenciar o projeto “Aguas Marítimas” teve início em março de 2022 e levou mais de quatro anos para ser concluído. Durante esse período, foram realizadas adequações no projeto com base em discussões com comunidades locais e órgãos públicos.

No entanto, em dezembro de 2025, o projeto foi temporariamente suspenso devido à identificação da presença da espécie ameaçada Chinchilla lanigera na área prevista para construção.

Ainda que tenha recebido aprovação unânime da Coeva, houve contestações por parte da Secretaria Regional Ministerial (SEREMI) de Habitação e Urbanismo da região de Antofagasta. Essa secretaria questionou a avaliação ambiental realizada no território municipal. É importante ressaltar que a dessalinização pode impactar diretamente os ecossistemas marinhos e que a construção das infraestruturas necessárias afetará centenas de quilômetros na área.

By Fala SP

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