Ele apareceu vestido com bermuda, chinelos e sem camisa. No canto do bar, avistou uma mesa desocupada. Chamou o garçom e pediu uma porção de bolinhos de bacalhau acompanhada de uma cerveja. A solidão não emite som.
O ventilador suspenso, coberto de gordura, fazia um barulho incômodo com seu “tec-tec” enquanto girava no ambiente simples. Seu copo lagoinha era a sua preferência inabalável. Nada parecia interromper a rotina daquele operário comum. O tempo, que sempre foi um adversário, agora se tornara seu aliado.
Ali ficou, imerso em pensamentos, compartilhando o silêncio com a mesa, a porção de petiscos e a garrafa de cerveja. Naquela atmosfera, sentia-se como um monarca. Contudo, os seus olhos cansados revelavam sua verdadeira condição. Percebeu que a solidão também pode ser uma boa companheira.
Em um momento, ligaram a televisão do boteco para exibir o jogo entre o Clube Atlético Mineiro e seu tradicional rival, o Flamengo, que aconteceria no Maracanã. Contudo, naquele dia ele não desejava barulho algum. Pagou sua conta e saiu do estabelecimento.
Ao caminhar pela rua, sentiu a brisa fresca da noite e um leve alívio no peito. Ele parou em frente a uma casa típica da área operária onde morava. O muro apresentava partes descascadas e as paredes pediam uma nova camada de tinta; ainda havia um vidro quebrado na janela da frente. Contavam que ali residia seu grande amor, e ele lembrava-se de como sorria ao vê-la varrendo o passeio na porta. Ela desapareceu e nunca mais voltou devido às fofocas dos vizinhos.
Com passos lentos e pequenos, retornou para casa. Parou diante do espelho na sala e contava as horas até reencontrá-la. O operário sonhador nunca se negou a ajudar ninguém.
No dia seguinte, voltou ao bar novamente e notou uma mesa vazia no canto.
