Após o término de uma conversa, você pode continuar pensando sobre ela ao longo do dia. As palavras do outro ecoam na sua mente, e você se pega imaginando as respostas que não deu, reorganizando suas ideias e refletindo sobre como a situação poderia ter sido diferente.
Em algumas situações, o conflito parece se encerrar quando as partes envolvidas param de se comunicar. Contudo, isso não garante que o problema foi realmente solucionado ou que as emoções geradas tenham desaparecido para quem participou da discussão.
Nem todas as disputas precisam ser resolvidas imediatamente. Às vezes, interromper uma conversa pode ser uma estratégia eficaz para evitar que a tensão aumente. Há momentos em que uma pessoa reconhece que está emocionalmente afetada e decide se afastar temporariamente, planejando retornar ao tema quando estiver mais centrada.
A questão crucial refere-se ao que ocorre após esse afastamento. Existe a intenção de retomar a conversa? A pessoa consegue discutir o ocorrido quando se sente mais calma? Ou será que aquele desentendimento simplesmente é esquecido na conversa, enquanto continua sendo digerido internamente?
Lilian Barbosa de Rezende, psicóloga com mais de 35 anos de experiência em psicologia integrativa, aponta que a dificuldade em se posicionar pode estar ligada à percepção de valor pessoal.
“É comum reconhecer seu valor, mas ainda assim não ter coragem para se afirmar devido ao medo de ser abandonado ou por não acreditar em seu próprio valor”, explica.
Esse comportamento pode levar a um processo onde a pessoa sacrifica gradualmente suas necessidades e opiniões.
“Isso resulta em um vazio interno e na despersonalização. A identidade e individualidade da pessoa começam a se apagar”, completa.
Lilian observa em sua prática clínica que essa dinâmica frequentemente está associada a pensamentos autodepreciativos.
“Quando essa ruminação começa, surgem pensamentos como ‘eu não valho nada, não sou capaz disso, veja como estou vivendo’, o que provoca grande angústia e tristeza, podendo levar até à depressão”, afirma.
A ruminação emocional
A continuação dos pensamentos sobre uma discussão mesmo após ela ter terminado pode ser explicada pela ruminação. Este termo refere-se à tendência de revisitar repetidamente um evento, explorando suas causas, consequências ou possíveis resultados.
Um estudo realizado em 2023 na revista Psychosomatic Medicine examinou 107 casais casados entre 40 e 87 anos. Durante a pesquisa, os casais participaram de uma discussão sobre um problema no relacionamento por 20 minutos enquanto pesquisadores monitoravam indicadores fisiológicos.
Pouco depois da discussão, eles avaliaram o nível de proximidade entre si e, cerca de duas horas depois, indicaram quanto tempo ainda estavam pensando no conflito.
Aqueles que estavam mais satisfeitos com seus relacionamentos demonstraram menos ruminação após as conversas e relataram maior sensação de proximidade nesse intervalo. O estudo também revelou que pessoas que utilizam uma linguagem centrada no “nós” durante os conflitos apresentam menor ruminação.
“Silent treatment”
Outro fenômeno relacionado é o silêncio utilizado como forma de distanciamento ou punição, conhecido como silent treatment, ou conflito silencioso. Essa dinâmica vai além da simples pausa antes de retomar uma conversa.
A diferença é significativa porque o silêncio pode representar tanto um momento para processar emoções intensas quanto um padrão habitual de afastamento.
Uma pesquisa publicada em julho de 2026 no Journal of Family Therapy, disponível online (em inglês), analisou 111 casais casados para investigar esse comportamento. Os resultados mostraram uma relação entre esse tipo de conflito e a diminuição da qualidade do relacionamento, tanto individualmente quanto entre os parceiros.
Os pesquisadores ressaltam que este tema ainda carece de exploração científica aprofundada. Portanto, afirmar que “quem permanece em silêncio está acumulando ressentimento” seria simplificar excessivamente a questão.
A pergunta mais pertinente é: o silêncio auxilia na gestão do conflito ou apenas adia uma conversa ainda necessária?
Lilian acredita que há um momento em que o silêncio deixa de ser apenas uma pausa e se torna parte de um processo mais amplo de anulação das próprias necessidades.
<p“Isso gera um autoabandono e um vazio existencial, colocando a pessoa numa condição mais submissa em relação ao outro”, observa.
Esse ciclo pode perpetuar o sofrimento: ao submeter-se a situações consideradas agressivas sem conseguir se afirmar, a pessoa também pode direcionar sua agressividade contra si mesma.
