A determinação do governo de Donald Trump para interromper os atendimentos presenciais na Embaixada dos Estados Unidos em Brasília e nos consulados espalhados pelo Brasil, anunciada nesta sexta-feira (2), acendeu um sinal vermelho na Polícia Federal (PF) e na Agência Brasileira de Inteligência (Abin). As autoridades estão em alerta para uma possível operação psicológica que estaria sendo coordenada pela Casa Branca em colaboração com a candidatura de Flávio Bolsonaro, sugerindo uma nova tentativa de golpe de Estado. Esta informação foi confirmada por um embaixador proeminente no governo Lula.
Conforme apurado, após a ordem de fechamento da embaixada devido a “ameaças”, emitida pelo Departamento de Estado dos EUA sob a liderança de Marco Rubio, foram enviados comunicados ao Sistema Brasileiro de Inteligência (Sisbin). Esses relatórios alertavam sobre uma “Psyops”, uma operação psicológica que visa criar um clima constante de tensão até o dia das eleições presidenciais, marcado para domingo (4).
Uma fonte da PF envolvida na elaboração dos comunicados destacou: “Esse tipo de golpe não segue o formato tradicional. O intuito é favorecer um candidato em detrimento de outro. O plano deles é que o atual candidato com chances de vitória, o presidente Lula, seja responsabilizado por propiciar esse ‘clima violento’. O medo poderá fazer com que os eleitores optem por não votar ou escolham outro candidato. Isso pode resultar numa abstenção significativa, dificultando a vitória no primeiro turno”.
A chamada “guerra híbrida”, que envolve a atuação das redes sociais dominadas pelas grandes empresas de tecnologia, é referida internamente como Operação Brother Sam II. O nome remete à Operação Tio Sam, que foi ativada pelos EUA durante o golpe militar no Brasil em 1964, quando os Estados Unidos enviaram uma força-tarefa para o litoral brasileiro, liderada pelo porta-aviões USS Forrestal, como forma de intervenção caso houvesse resistência interna.
Um agente da PF esclareceu: “O objetivo é claro: instaurar um clima de medo. O eleitor pode pensar: ‘A embaixada americana e a australiana estão sendo fechadas devido a possíveis atos terroristas’. Isso pode levá-lo a hesitar sobre sair para votar”.
Os comunicados já foram disseminados não apenas entre os integrantes do Sisbin, mas também para diversos ministérios e representantes do Itamaraty. Um desses ministérios confirmou ter recebido informações sobre o alerta gerado pelos setores de inteligência.
De acordo com a fonte consultada, “Estamos diante de uma guerra híbrida; trata-se de uma operação psicológica que gera informações contraditórias para fomentar um ambiente desfavorável e inseguro”.
A Influência do Clã Bolsonaro
Os órgãos de inteligência acreditam que a decisão do governo Trump sobre o fechamento das atividades na embaixada e consulados pode ter sido decidida mediante diálogo com representantes da campanha de Flávio Bolsonaro, refletindo mais uma interferência dos EUA nas eleições latino-americanas. Eduardo Bolsonaro (PL), irmão do candidato, atua como um dos principais intermediários e possui acesso direto ao Departamento de Estado americano.
Informações indicam que a campanha de Flávio Bolsonaro planeja gerar pânico em resposta à decisão vinda dos Estados Unidos, inclusive através de declarações do próprio candidato.
“Estamos presenciando um novo golpe de Estado. O bode expiatório agora não é mais o ‘comunismo ou corrupção’, mas sim o Estado brasileiro considerado censor e sua influência sobre o Judiciário”, analisou uma fonte sobre as estratégias envolvendo “censura” e ataques ao sistema judiciário, intensificadas após o cancelamento do debate promovido pela TV Globo na noite desta quinta-feira (1º).
Além disso, partes dos informes encaminhados ao Sisbin foram obtidas e detalham a Operação Psicológica monitorada pela inteligência nacional.
“As OpPsico devem ser planejadas e executadas com base em princípios fundamentais que garantam seu sucesso”, afirma o documento, listando diversos aspectos cruciais observados no desenvolvimento da operação. Entre os pontos destacados estão:
- Credibilidade – As operações devem basear-se em fatos verídicos que convençam o público-alvo sobre a mensagem transmitida; a credibilidade é essencial para seu êxito.
- Oportunidade – As operações devem ser realizadas no momento certo, alinhadas ao contexto temporal e espacial adequado.
- Progressividade – As ações devem ser implementadas gradativamente, seguindo um ritmo apropriado. Cada etapa deve ter objetivos claros que contribuam para o êxito das fases subsequentes.
- Unidade de Comando – A supervisão das operações deve ser centralizada nas instâncias superiores para garantir diretrizes coerentes; decisões divergentes podem comprometer todo o esforço realizado.
A vigilância quanto a possíveis intervenções externas dos EUA tem sido realizada por agentes da inteligência há meses.
Nesta quinta-feira (1º), uma reportagem publicada pelo jornal britânico The Guardian levantou suspeitas ao afirmar que Donald Trump destinou US$ 1 milhão a um grupo brasileiro visando atacar o Supremo Tribunal Federal (STF).
A informação coincide com as preocupações acerca do financiamento externo destinado a minar a credibilidade do Judiciário nacional e fomentar um clima de “censura” no Brasil.
Conforme reportado pelo Guardian, essa quantia milionária faz parte de um pacote totalizando 176,9 milhões dólares do Fundo de Direitos Humanos e Democracia do Departamento de Estado dos EUA, voltado para financiar iniciativas alinhadas às pautas conservadoras e direitistas em diferentes países.
O programa destinado ao Brasil intitula-se “Countering Lawfare and Censorship in Brazil” – ou “Combatendo a Guerra Jurídica e Censura no Brasil”, segundo informações veiculadas pelo jornal britânico.
