No dia 30 de outubro, a Fórum promoveu o seminário Diálogos para o futuro: o Brasil em 2050, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), reunindo especialistas de diversas áreas para discutir os principais desafios que o Brasil enfrentará nos próximos anos. O segundo painel, intitulado Inovação, Competitividade e Neoindustrialização, contou com a presença do professor Denis Maracci da Unicamp, João Luis Gordon, diretor de Desenvolvimento Produtivo, Inovação e Comércio Exterior do BNDES, Gabriel Medina, secretário de Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro, e o sociólogo Sérgio Amadeu.
A seguir, apresentamos os principais pontos abordados durante o painel.
Retomada da industrialização
A abertura do Painel 2 foi feita por João Luis Gordon, que discutiu a reindustrialização sob a presidência de Lula (PT) e as expectativas futuras. Ele apontou que enquanto a China avançou significativamente em sua capacidade industrial nas últimas cinco décadas, muitos países ao redor do mundo têm adotado uma postura negativa em relação à política industrial.
Gordon enfatizou que essa tendência foi ainda mais acentuada no Brasil. Contudo, com o início do terceiro mandato de Lula, o país iniciou um novo ciclo de industrialização através do programa Nova Indústria Brasil. Ele observou que apesar dos esforços para revitalizar a política industrial desde 2023, críticos têm questionado a eficácia dessas iniciativas ao apontar que a indústria não apresenta um crescimento anual de 10%.
“O governo Bolsonaro desmantelou toda a estrutura estatal e o apoio ao setor industrial. Agora estamos tentando reativar uma política que havia sido abandonada. Existem dois grandes desafios nesse processo. O primeiro é restabelecer a estrutura governamental que havia deixado de operar efetivamente em relação à indústria”, declarou Gordon.
O segundo desafio destacado pelo diretor é mobilizar o setor empresarial para que este invista em inovação e tecnologia.
“Estamos num momento crucial para recriar políticas industriais que tragam resultados palpáveis. Observamos investimentos significativos no setor farmacêutico brasileiro em pesquisa e desenvolvimento de vacinas e novos medicamentos. Conseguimos atrair investimentos para o Brasil que antes estavam concentrados em centros internacionais de P&D”, acrescentou Gordon.
Desafios da neoindustrialização
Denis Maracci, professor do Instituto de Economia da Unicamp e coordenador nacional do “O Brasil no século XXI” pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), foi o próximo a se pronunciar, abordando os obstáculos enfrentados na recuperação da política industrial no Brasil.
Maracci destacou que revitalizar a industrialização é um desafio global atualmente devido às “mudanças drásticas” ocorridas nas últimas décadas. Isso inclui uma concorrência crescente gerada por cadeias globais de valor e uma nova divisão internacional do trabalho que tem centralizado decisões enquanto descentraliza a produção.
“Estamos vendo um redesenho complexo do mapa produtivo e financeiro mundial que dificulta a implementação de políticas nacionais eficazes”, afirmou Maracci.
“Esse cenário nos impactou profundamente por diversos fatores nas últimas décadas, especialmente recentemente com transformações significativas nas esferas financeira, tecnológica e geopolítica”, complementou o professor.
Ele também ressaltou questões cruciais sobre as direções futuras do Brasil dentro desse novo contexto internacional: “Precisamos refletir sobre onde queremos estar nos próximos anos, identificando nossas potencialidades e oportunidades”, disse ele.
Maracci mencionou algumas áreas promissoras para novos setores industriais no Brasil como bioeconomia, saúde e energia renovável. Contudo, alertou sobre a predominância chinesa nesses segmentos: “Esses setores estão majoritariamente dominados pela China atualmente”, pontuou.
Entretanto, ele acredita que existem oportunidades valiosas nesses novos mercados devido ao fenômeno da hiperindustrialização dos serviços no país.
Ponto de vista do Rio de Janeiro
Gabriel Medina, secretário de Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro, foi o terceiro painelista e abordou os desafios específicos enfrentados pela capital fluminense na indústria. Medina lamentou uma falta histórica de comprometimento governamental transformador no estado mas ressaltou avanços significativos nesse sentido nos últimos tempos.
“O Rio tem um grande potencial para desenvolver novos setores industriais fora da cidade. Recentemente vivemos um processo de desindustrialização no setor da saúde com muitas empresas deixando nosso estado. No entanto, há espaço para explorar novas oportunidades”, observou Medina.
Ele destacou ainda os esforços do governo municipal em conectar políticas federais à estratégia local visando impulsionar transformações na indústria carioca.
“Estamos desenvolvendo uma estratégia voltada à inteligência artificial focando inicialmente na infraestrutura necessária. Temos parceria com o BNDES para criar um data center na Barra Olímpica com grande potencial devido à infraestrutura já existente após as Olimpíadas”, informou Medina.
A questão do desenvolvimento: desafios políticos e ideológicos
A última apresentação foi feita por Sérgio Amadeu, sociólogo e professor da Universidade Federal do ABC. Ele discutiu a Indústria 4.0 e enfatizou a necessidade urgente do Brasil investir em tecnologia avançada.
Amadeu ponderou que as discussões sobre organização da pesquisa não tocam na raiz do problema: não é apenas nas universidades onde reside a dificuldade, mas sim na falta de uma indústria nacional disposta a investir em pesquisa dentro do país.
“Essa situação revela um problema crônico associado ao empresariado nacional subordinado aos interesses das elites dominantes internacionais. Portanto, os obstáculos ao nosso desenvolvimento são políticos, ideológicos e agora também geopolíticos”, destacou Amadeu.
Ainda segundo ele, romper essa lógica é fundamental para estabelecer uma aliança interna capaz de sustentar políticas superiores à anarquia imposta pelo mercado.
“Para implementar essa política de desenvolvimento será necessário formar uma coalizão interna capaz de desafiar as práticas neoliberais atuais. A questão é se tal aliança será viável?”, indagou Amadeu.
Para assistir ao seminário completo da Fórum utilize os links abaixo:
